quinta-feira, abril 20, 2006

Apatia segunda


 Posted by Picasa

Tinha para si, naquela noite, o ápice de sua calma existência. Conseguiu passar horas jogando xadrez sozinho. Muito mais que um instrumento educativo ou um exercício mental agradável e vivificante, naquela noite, concebia o xadrez como um cambate egocêntrico, onde a cada jogada ia propriamente se aniquilando de alguma forma. Nenhum bispo ou rainha o incomodava. Mas havia se imposto o compromisso de se aniquilar com um belo xeque-mate. E ficou, naquela noite, num embate meramente de peões.

Reminiscências - O Prostituto - Diário de Guerra 20-04-06


A menina era feia, não tinha jeito. Esteticamente feia. Rosto feio. A boca também. O nariz, idem. Feia no modo de andar. Falava feiamente, seu discurso era feio. É bem verdade que tinha umas coxas que dava vontade de morder. Mas a Arrenegada era feia como a necessidade. Sei que tenho alguns graus de feiúra, mas ela ganhava de mim com as mãos nas costas. Em resumo: era lazarenta de feia. Um amigo e eu estagiávamos dando aulas de informática em meados de 1998. Muito obstante fosse o colégio localizado lá no bairro Centenário, na rua Catulo da Paixão Cearense e demorasse entre uma e uma hora e meia de minha casa até lá; eu ganhava bem, girando em torno de quatrocentos e seiscentos reais (hora-aula + aluno novo matriculado + vale-rango + vale transpobre) e só gastava em patifaria: dezesseis anos + algum dinheiro – (juízo + bom senso) = vilanias mil. Mancha (aquele meu amigo) estava apaixonado. Não havia o que retirasse sua atenção disso. Só falava dela: Ela isso, ela aquilo, ela istoutro... E todo aquele blá blá blá de piá apaixonado. Estavam juntos há duas ou três semanas. Foi quando ela o convidou a ir numa festa aleatória, de uma amiga aleatória, numa balada aleatória. Fatores incertos à parte, que tinha eu com isso? Ele me convenceu a acompanhá-lo com um argumento bem persuasivo: "Se você for comigo, eu fico trabalhando nas três próximas sextas-feiras, e assino seu nome!" Ora, eu trabalhava no período noturno ficando, deste modo, minhas sextas-feiras mortas para qualquer tipo de evento social. E não tinha erro, três sextas de muita alegria e contentamento e só melhorava: seria pago por isto. Só tinha uma cláusula: teria que dar atenção a uma amiga dela. "Mas por quê?", inocentemente pergunto; "É que ela é meio chata, e sabe como é..." E todo aquele blá blá blá de piá apaixonado. Pensei por alguns segundos e seduzido pela maravilhosa – leia-se estúpida – lógica adolescente chego à óbvia conclusão: "É batata! Saio, se duvidar me divirto, e se duvidar ainda mais cato uma mina!".
E eis que chega o grande dia, ao menos para o Mancha. Era como o esperado: chegamos cedo, bebemos algo, babamos em alguns exemplares deliciosos do sexo oposto que desfilavam mexendo com nossa libido, mas amada de meu amigo e sua companhia não apareciam. Continuamos em nosso difícil trabalho de salivar pelas meninas insinuantes que nunca insinuavam nada para nós, quando entram na casa Sra. Mancha e sua amiga. Pavor!!! Medo!!! Horror!!! A Sete-Peles era digna de um filme trash, e a maquiagem carregada deixava a Temba mais feia que o próprio Bode-Preto. A Maligna era tão diachenta que eu não conseguia olhar para sua cara. Passados os cumprimentos – sério: a Excomungada usava perfume de enxofre amadeirado com tons cítricos – fomos arranjar uma mesa. Bem, tinha que ajudar um amigo, então que seja: Comecei a beber. Beber é bom. Caipirinha, valei-me! Embora não conseguisse olhar para a Sarnenta, firmei-me no propósito de lhe dar atenção e iniciamos uma conversa. Uma hora (e três caipirinhas) depois, as amigas foram juntas ao banheiro. Não titubeei, comentei com o Mancha: "A Cafuçu é muito feia!" Ele riu, mas nem ligou. Merda de piá apaixonado. Elas voltaram e continuei meu diálogo. Diálogo que era algo assim (na verdade só ela falava): "Eu isso... Eu aquilo... Eu comprei isso... Eu comprei aquilo... Daí eu disse... hahaha... Na minha?!..." E todo um palavrório sem pé nem cabeça. Mas eu, Eumolpo, de forma heróica, persistia na cruel tarefa que me foi imposta. De súbito, Mancha me intima a irmos pegar mais bebida. Estranho, pois meu copo de caipira estava ainda pela metade, sem falar que havia garçons na casa. Isento de malícia, fui.
Chegados ao bar ele comenta, diante de meu pasmo crescente: "Ela quer ficar com você!" Ao que prontamente respondi: "Não!" Ele tentou argumentar, mas não arredei o pé da minha convicção, e dizia: "Que parte do Não! você não entendeu?!" (Certo: não dizia isso exatamente, mas gostaria de saber esta expressão naquela hora.) Ele argumentava e eu sempre na negativa; até que ele utiliza, de forma vil, a negociata: "Trabalharei seis, exatamente seis, sextas-feiras se você fizer isso!" Seis!!! Nossa! Por mais feia que a Coisa-Ruim era, por tantas sextas sem trabalhar eu beijava até o próprio Pé-Cascudo! E segui a nova orientação. Conversei com a menina com mais ânimo, dito d’outro modo: Enquanto ela falava de si eu dizia ocasionalmente um "aham" ou simplesmente sorria. Não contente com isso a Nem-Sei-Que-Diga começou a se aproximar mais de mim. Inconscientemente meu corpo me afastava do perigo. Mas o orgulho e a promessa feita me forçavam a ficar com o corpo imóvel. E a Capeta continuava naquela discursividade inútil. Repentinamente impera o silêncio. Ela para de falar. Olha-me nos lábios. Curva sutilmente a cabeça em direção ao meu ombro. Fecha os olhos. E tenta com sua boca tocar a minha. Diante da repulsa daquela visão assombrosa, cerro os olhos com muita força. Ela me beija. Tento pensar em outra coisa: Amanhã tem jogo do Corinthians; seis sextas de folga; será que fui bem na prova de português? Mas era inútil. A língua áspera da Tinhosa passeando na minha boca me repugnava de tal maneira que pensei por um momento que iria vomitar. Mas não tive essa sorte. Foi um beijo impiedosamente demorado. Mas, para meu desafogo, acabou, e mais do rapidamente pego e tomo num só gole a caipira que estava à minha sombra e, não satisfeito, vou ao bar e tomo duas tequilas. Matadas as bactérias da Capa-Verde, e bem alcoolizado, volto à mesa. Três ou quatro suplícios depois – ou em outra medida de tempo: cinco ou seis tequilas depois – ela me pergunta: "Você já tinha beijado uma garota?" Totalmente embriagado, com vontade mandar todo mundo tomar, mas bem tomado, no cu, respondo educadamente: "Já sim, por quê?"; e continua: "Sabe o que é...? não me leve a mal... mas... é que... você beija muito mal..." E continuou falando algo que não compreendia e nem quero lembrar. Só lembro que me levantei, puxei o Mancha pelo colarinho, disse que tinha acabado a minha parte; paguei minha conta, tomei um táxi e fui para casa.

terça-feira, abril 18, 2006

... De Ontem Em Diante

De ontem em diante serei o que sou no instante agora
Onde ontem, hoje e amanhã são a mesma coisa
Sem a idéia ilusória de que o dia, a noite e a madrugada ]
[ são coisas distintas
Separadas pelo canto de um galo velho
Eu apóstolo contigo que não sabes do evangelho
Do versículo e da profecia
Quem surgiu primeiro? o antes, o outrora, a noite ou o dia?
Minha vida inteira é meu dia inteiro
Meus dilúvios imaginários ainda faço no chuveiro!
Minha mochila de lanches?
É minha marmita requentada em banho Maria!
Minha mamadeira de leite em pó
É cerveja gelada na padaria
Meu banho no tanque?
É lavar carro com mangueira
E se antes um pedaço de maçã
Hoje quero a fruta inteira
E da fruta tiro a polpa... da puta tiro a roupa
Da luta não me retiro
Me atiro do alto e que me atirem no peito
Da luta não me retiro...
Todo dia de manhã é nostalgia das besteiras que fizemos ontem

(Fernando Anitelli)

segunda-feira, abril 17, 2006

O Jardim - Diário de Guerra 16-04-06


Tenho um jardim, embora não muito grande. Mas cuido dele com certa estima. Passados os bons tempos de plantio (primavera e verão) decidi não sem tristeza forrá-lo com britas para que o frio que se anuncia não estrague o solo. Com cuidado, retirei as ervas-daninhas que ali e aqui adornavam meu horto. Porquanto algumas tinham raízes muito profundas – e como não se trata apenas de puxá-las – escavei até às profundezas para que seus restos não consumissem mais nutrientes para não deixar o solo pobre. Não obstante compreenda que sempre restará grão que resistiria à limpa mais atenciosa, não abandonei meu plano. Lembro de uma época que deixei de lado a monda – por ingenuidade, desatenção, imaturidade, sei lá – em meu jardim cresceram as mais variadas ervas: enquanto umas em sua quimérica beleza que me deixavam aturdido mas que não passavam de mato do mais vulgar, outras que cresceram sem graça, assim imperceptíveis por sua vulgaridade, mas que se tornaram robustas e ainda mais belas. Mas o zelo excessivo tem seu preço: algumas morreram pois deveria deixar a natureza seguir seu rumo. Mas isso tudo é passado. Estas lembranças só incomodam, sem contar que acontece o tempo todo em qualquer jardim. Terminada a limpeza de aparência, resolvi gastar um tempo com um intervalo, ou o que significa o mesmo, um café e alguns cigarros. E volto à labuta: Cubro o solo com as pequenas pedrinhas, uma camada de dois centímetros, para ser exato, e dou o trabalho por encerrado. Só iria me preocupar com isso novamente no início de setembro. Novo dia. Estudo com certa tranqüilidade e, em meio a livros e café, resolvo parar e apreciar minhas pedrinhas recém cultivadas. Abro a janela e sobrevém o susto: bem ao centro do jardim, nasceu uma rosa.

Findo o sobressalto, vejo mais de perto. Sim, meu olhos não me enganam. É uma rosa. Mas como? Que teria ocorrido para que ela sem mais nem mais viesse nascer tão repentinamente? Não há que eu saiba nenhuma roseira aqui perto que nem em sonhos mais desvairados pudesse de alguma maneira ter permitido vir à luz imprevisto tão belo como esse. Mas o que mais me intrigava era: Por que no meu jardim? Logo agora, que houvera decidido pela esterilidade de meu horto? Sem respostas, cumpre ao menos vê-la em sua beleza singular. O caule é verdinho, verde apenas quebrado pelos assustadores espinhos que salpicavam todo ele que mudavam de tom abruptamente: do verde ao marrom da imbuia. As pétalas que ainda não haviam decido a cor, estavam em botão. Esta doce brancura contrastando com o verdinho e com o assustador marrom torna meu coração mais inquieto. Deveria podá-la? Ou antes nutri-la, tomá-la como amante? Irei me ferir nestes espinhos tão afiados? Sua doçura iria sobreviver ao meu descuido habitual? Sua delicadeza seria esgotada pelas minhas mãos tão grosseiras? Ou as geadas iriam consumi-la? Perguntas demais, repostas de menos. Estou a apreciá-la. O prazer a que me permito talvez seja meu pecado. Doce pecado esse o meu. Mas veremos. De qualquer modo, contemplo-a, sentado à sua frente. À mão direita uma tesoura, à esquerda adubo.