quinta-feira, julho 20, 2006

Poeta bom, poeta morto - 2ª parte - Diário de Guerra 20-07-2006


Pois há menos peixinhos
A nadar no mar
Do que os beijinhos
Que darei na sua boca


Nos encontramos. Passadas as tempestades, enfim te encontro. Palavras são trocadas. Algumas em tom de confissão e, já outras, de galhofa. E rimos e ficamos sérios. Estou contente mas inseguro. Inseguro mas ansioso. Ansioso mas retraído. Minhas mãos tumultuosas me delatam. Colocá-las no bolso? Segurar o copo? Não creio que adiantaria: meus ombros dançariam uma dança engraçada ou o vinho rapidamente encontraria a mesa. O local bem iluminado premia a qualquer um, que possa ver, com a graça de seu rosto em flor. Desabrochando em risos e sorrisos alegrando meu coração. Pessoas entram e saem do ambiente. Com seus temores e tristezas, alegrias e encantos. Mas só vejo você e teus temores, só vejo você e teus encantos. Enfeitiçado, insisto em parecer sereno. Mas deixei a serenidade em casa. Sabe como é: só não esqueço a cabeça... Mas ainda lembro: seus cabelos que tanto se enlaçam ao menor toque. E, por isso, timidamente reclama e chega a ruborizar. De fato não ligo, mas acho engraçado como te ocupas disso e pergunto o porquê. E o faço para ouvir a melifluosidade de suas palavras, sempre encadeadas como se houvesse desvendado o segredo rítmico da poesia de si. Não bastassem as mãos, estas minhas inimigas, meu peito pula mais que tico-tico no fubá. Tento não demonstrá-lo, creio que consigo, mas não tenho certeza. De incerteza em incerteza vou andando. Nossa como o tempo passa!, a pouco tinha impressão que você não vinha e agora já se passaram duas horas. Duas horas que pareceram dez minutos, dez minutos de um batuque estranho de meus dedos para o bailar de meus tico-ticos. Precisamos ir a algum lugar, este fecha já. Sem caminho definido nos levantamos (minha perna, além de machucada, bamba de tanta vergonha) e vamos para fora. No sereno te olho. Silêncio. Seus olhos, de lindos azuis, estão em mim. Me aproximo minhas mãos amigas te trazem para junto. Nossos lábios se encontram. E por fim o beijo.

terça-feira, julho 18, 2006

Poeta bom, poeta morto - 1ª parte - Diário de Guerra 18-07-2006

Quando eu nasci
Um anjo só baixou
Falou que eu seria
um executivo
E desde então eu fico
com meu banjo
Executando os rock’s
do meu livro
Pisando em falso com
meus panos quentes
Meu primeiro amor passou, o segundo também. O terceiro não teve destino diferente. O quarto foi um aprendizado. E este periga nascer morto. Toca o telefone. Sei que não é você. Atendo. De fato não era. Engano. Acendo o cigarro. A tragada me traz alívio. A noite é fria. Fria demais para mim. Preciso de você ao meu lado, mas você, ali, não está. O chiado do rádio é minha trilha sonora. Por que você não fica comigo? Outra tragada. Esta não traz alívio. Me estiro na cama. Penso em chorar, mas o choro não vem. Me cubro, o calor não aquece. Levanto, me olho no espelho e não me vejo. Onde está você agora? Com as amigas? Uma companhia mais interessante por certo. Acendo um cigarro com a ponta do último. Abro um livro e tento, em vão, me concentrar nele. Tento não ceder às memórias, mas o turbilhão de pensamentos derruba qualquer resistência que tentei levantar. O último beijo, apertado e com um triz de saliva, seus olhos de lindos azuis, mas que nunca foram meus, o último abraço, a mordiscada no pescoço, o silêncio gostoso de depois. E jogo o livro longe e desarrumo a cama e jogo os lençóis ao chão e quebro a cadeira no guarda-roupa e sua porta vai ao chão e parto-a em duas, três, em quatro pedaços e derrubo a estante. O rodopiar de um livro drummondiano (amar se aprende amando) me faz cessar. Sento na escrivaninha.Vem aqui, fica comigo, esquece por um momento aquilo que nos separa. Mas você não esquece. Alguém bate à porta: “o que aconteceu?”, não a abro e respondo: “coisas da vida!”. Deixe de lado tudo aquilo separa e fica comigo. Mas você não deixa. Por quê você não deixa? Que importância tem isso? A idéia não era sermos felizes? Com o quarto redecorado, procuro meus cigarros. Acho-os e acendo outro. Minha mão sangra. Dei-me conta disso quando percebi meu lado esquerdo do peito com uma grande mancha rubra. Certa vez me disseram que o amor tudo salva. Que a beleza da vida é a vida a dois. Olho minha mão, olho meu peito, o ferimento não estanca. O sangue corre. Minhas mãos estão sujas. Olho o ferimento mais de perto. Há uma lasca de madeira. Abro-o, e desta arte, a retiro. Mais sangue. Minha crença é que as agruras que se apresentam no dia-a-dia seriam aniquiladas. E onde, ao final, iria ser iluminada por uma aurora de amor. Mas os dissabor nosso de cada dia falseia mais e mais isto. O telefone toca. Sei que não é você. Atendo. Mas desligo antes do alô. E retiro o fone do gancho e novamente vou para o cigarro. Talvez você tenha razão, não importa quem sou, mas o capital que giro. Talvez seja melhor matar o melhor de mim. Pois ele está desvalorizado.

terça-feira, junho 20, 2006

Eu e Ela ou O tocador de tambor - Diário de guerra 16-06-2006

Com aqueles luzeiros que nunca revelavam mais que ocultavam. Os lábios que me destruíam qualquer pretensão de defesa. As melenas, que sempre reclamava desgrenhadas, mas de alguma forma mágica sempre estavam perfeitamente ajeitadas, eram do comprimento do delírio. A pele salpicada por um sem número de pigmentos castanhos dava a ela um ar tão inocente como alguma coisa que o leitor entenda como tal. Aquela paixão adolescente pelo que fazia, algo entre o orgulhoso e o non sense, fazia com que o caboclo ficasse perdido. Como de fato ficava. Mas longe de ter uma beleza infantil, muito pelo contrário, com aquele par de coxas... nhami, nhami... Eu colocava no espeto e sobre a brasa e ó... só ia comendo as lasquinhas. Quand estávamos juntos parecia que estávamos sós, mesmo em locais muito públicos: Nos devorávamos um ao outro sem muito pejo. Abraços em brasa, os beijos verdadeiras queimaduras de terceiro grau. Quem olhava poderia pensar, e me disseram depois que pareciam, duas bestas no cio a se amar livremente. O que ela dizia me estarrecia. Graças à minha estrutura egóica frágil, o que ela sugeria tinha um valor de verdade inquestionável. Não falava apenas sobre o ontem e o hoje... mas de forma precipitada sobre o futuro-que-a-Deus-pertence e tal. Não se faz isso com o caboclo, se o caboclo leva a sério... já viu né!? Mas como nem tudo são flores, ela tinha uma ‘importante’ viagem. Ela foi. Eu fiquei. Me ardia pensando na ausência do meu objeto de desejo. Não sei quem o disse, mas o disse com acerto: "Não é sempre que se encontra alguém na medida exata do desejo". Era isto que sentia. Dormia pensando nela, comia pensando nela, escovava os dentes pensando nela, tirava aquela bolinha de algodão do umbigo pensando nela, pensava pensando nela, (com aquele corpo que me deixava louco é válido dizer, estimados amigos: me masturbava pensando nela). Enfim, neurose em estrado bruto. Mas eis que chega o dia de seu retorno. Como o combinado esperava sua ligação, que não veio. Fiquei ressabiado. Mas ainda esperançoso de noticias suas, que não vieram. O silêncio ensurdece o caboclo... Se o caboclo fica surdo, aí já viu né!? Mas depois de alguns dias resolvi ligar. Três vezes liguei e apenas na última consegui trocar alguns conceitos com a delícia. Nas duas primeiras, apenas algumas palavras. Fiquei na suspeita... e quando o caboclo fica na suspeita.... Falando com aquele docinho de mascavo tudo ficou às claras: ela havia ficado (entenda-se: numa viagem com acomodações, e coisas tais, ‘ficar’ pode gerar uma vastíssima gama de interpretações) com um tocador de tambor. Sim, é isso mesmo, caro leitor: um tocador de tambor. Isto é, um ser (ok, um ente) que utiliza instrumentos de percussão (com a palavra meu amigo Aurélio:) "que constam de uma caixa cilíndrica de madeira ou de metal, cujas bases são revestidas de pele tensa e percutidas com baquetas ou macetas, e cuja sonoridade varia de acordo com as diferentes dimensões do instrumento." Os possíveis estereótipos do tocador de tambor já dançavam, leia-se tamborilavam, à minha frente: Aquele ser frágil que, fazendo dupla com o cornetista, aumentava a auto-estima das tropas nos campos de batalha, mas que invariavelmente eram os primeiros a morrer. (Como eles iriam matar os adversários? Às cornetadas? Às baquetadas?) Outro: Aquele ser (ok, aquele ente) que fica nas últimas fileiras da bateria da escola de samba. Só sentindo o cheiro delicioso de suor de seus companheiros. (Sou mais o cara do tamborim, que fica bem pertinho das carnes da madrinha da bateria.) De qualquer maneira que fosse, ele era um tocador de tambor. Já fui trocado por muitas coisas: professor, bucha de cocaína, dinheiro, amigos, carro, olho azul, cabelo comprido, etc, etc. Mas tocador de tambor é a primeira vez. (Percebam meus queridos leitores: nada contra eles, afinal sem a percussão o que seriam das rodas de samba que tanto aprecio.) Mas um tocador de tambor é sacanagem... Ou seja, de tantas qualidades cujos seres humanos (ok, entes humanos) podem ser descritos, por que ela escolheu exatamente este para descrevê-lo: tocador de tambor!? Por que a mais risível? Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Para concluir: depois que a verdade foi descoberta (ok, desvelada) permaneci calmo não mudei o tom de voz. Afinal, é justo dizer: ninguém tem controle sobre estas coisas. Nem eu, nem ela. Mas também não mais vi meu docinho de mascavo que tanto mexeu, e remexeu, com minha libido.