terça-feira, junho 20, 2006

Eu e Ela ou O tocador de tambor - Diário de guerra 16-06-2006

Com aqueles luzeiros que nunca revelavam mais que ocultavam. Os lábios que me destruíam qualquer pretensão de defesa. As melenas, que sempre reclamava desgrenhadas, mas de alguma forma mágica sempre estavam perfeitamente ajeitadas, eram do comprimento do delírio. A pele salpicada por um sem número de pigmentos castanhos dava a ela um ar tão inocente como alguma coisa que o leitor entenda como tal. Aquela paixão adolescente pelo que fazia, algo entre o orgulhoso e o non sense, fazia com que o caboclo ficasse perdido. Como de fato ficava. Mas longe de ter uma beleza infantil, muito pelo contrário, com aquele par de coxas... nhami, nhami... Eu colocava no espeto e sobre a brasa e ó... só ia comendo as lasquinhas. Quand estávamos juntos parecia que estávamos sós, mesmo em locais muito públicos: Nos devorávamos um ao outro sem muito pejo. Abraços em brasa, os beijos verdadeiras queimaduras de terceiro grau. Quem olhava poderia pensar, e me disseram depois que pareciam, duas bestas no cio a se amar livremente. O que ela dizia me estarrecia. Graças à minha estrutura egóica frágil, o que ela sugeria tinha um valor de verdade inquestionável. Não falava apenas sobre o ontem e o hoje... mas de forma precipitada sobre o futuro-que-a-Deus-pertence e tal. Não se faz isso com o caboclo, se o caboclo leva a sério... já viu né!? Mas como nem tudo são flores, ela tinha uma ‘importante’ viagem. Ela foi. Eu fiquei. Me ardia pensando na ausência do meu objeto de desejo. Não sei quem o disse, mas o disse com acerto: "Não é sempre que se encontra alguém na medida exata do desejo". Era isto que sentia. Dormia pensando nela, comia pensando nela, escovava os dentes pensando nela, tirava aquela bolinha de algodão do umbigo pensando nela, pensava pensando nela, (com aquele corpo que me deixava louco é válido dizer, estimados amigos: me masturbava pensando nela). Enfim, neurose em estrado bruto. Mas eis que chega o dia de seu retorno. Como o combinado esperava sua ligação, que não veio. Fiquei ressabiado. Mas ainda esperançoso de noticias suas, que não vieram. O silêncio ensurdece o caboclo... Se o caboclo fica surdo, aí já viu né!? Mas depois de alguns dias resolvi ligar. Três vezes liguei e apenas na última consegui trocar alguns conceitos com a delícia. Nas duas primeiras, apenas algumas palavras. Fiquei na suspeita... e quando o caboclo fica na suspeita.... Falando com aquele docinho de mascavo tudo ficou às claras: ela havia ficado (entenda-se: numa viagem com acomodações, e coisas tais, ‘ficar’ pode gerar uma vastíssima gama de interpretações) com um tocador de tambor. Sim, é isso mesmo, caro leitor: um tocador de tambor. Isto é, um ser (ok, um ente) que utiliza instrumentos de percussão (com a palavra meu amigo Aurélio:) "que constam de uma caixa cilíndrica de madeira ou de metal, cujas bases são revestidas de pele tensa e percutidas com baquetas ou macetas, e cuja sonoridade varia de acordo com as diferentes dimensões do instrumento." Os possíveis estereótipos do tocador de tambor já dançavam, leia-se tamborilavam, à minha frente: Aquele ser frágil que, fazendo dupla com o cornetista, aumentava a auto-estima das tropas nos campos de batalha, mas que invariavelmente eram os primeiros a morrer. (Como eles iriam matar os adversários? Às cornetadas? Às baquetadas?) Outro: Aquele ser (ok, aquele ente) que fica nas últimas fileiras da bateria da escola de samba. Só sentindo o cheiro delicioso de suor de seus companheiros. (Sou mais o cara do tamborim, que fica bem pertinho das carnes da madrinha da bateria.) De qualquer maneira que fosse, ele era um tocador de tambor. Já fui trocado por muitas coisas: professor, bucha de cocaína, dinheiro, amigos, carro, olho azul, cabelo comprido, etc, etc. Mas tocador de tambor é a primeira vez. (Percebam meus queridos leitores: nada contra eles, afinal sem a percussão o que seriam das rodas de samba que tanto aprecio.) Mas um tocador de tambor é sacanagem... Ou seja, de tantas qualidades cujos seres humanos (ok, entes humanos) podem ser descritos, por que ela escolheu exatamente este para descrevê-lo: tocador de tambor!? Por que a mais risível? Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Para concluir: depois que a verdade foi descoberta (ok, desvelada) permaneci calmo não mudei o tom de voz. Afinal, é justo dizer: ninguém tem controle sobre estas coisas. Nem eu, nem ela. Mas também não mais vi meu docinho de mascavo que tanto mexeu, e remexeu, com minha libido.