Meditações amorosas I A Solidão
Advertência:
Neste primeiro domingo frio de dois mil e seis, enfastiado de meus estudos, resolvo me ocupar de minhas angústias. Por exclusão lógica chego a mais penosa: a solidão. Mas como falar disso sem cair em considerações fúteis? Ou piegas? Ou em algum -ismo ou –iano em suas abstrações que nunca dão alívio, mesmo que se pensem bálsamos? Não tenho uma certeza, apenas uma saída. Mesmo que obstantemente ela não elimine este algo que me enregela cada vez mais o peito ao menos a exteriorizo. Assim escolho um interlocutor para o exercício: Vinícius de Moraes. O exercício é tentar descobrir a pior solidão. A mais sofrível. Espero que o leitor usufrua deste opúsculo – perdoando sempre a deselegância pobre do estilo e as mostras de orgulho do autor, que se crê humilde, e que pretende encetar um diálogo com tão ilustre personagem. Vamos ao diálogo:
Terá razão Vinícius – mais especificamente no seu posicionamento na crônica Da solidão (in Vinicius de Moraes : O Poeta da paixão) – ao concluir qual é a maior solidão? Seu argumento se inicia pela solidão onde o amante é arrancado do seio da amada: O corvo (de Edgar Allan Poe) e a intolerável perda de Lenore; Orfeu que desce ao Hades à procura de Eurídice; Dante, aos quintos dos infernos, em busca de Beatriz. Mas conclui: "a solidão que a morte da mulher amada deixa não é, porquanto absoluta, a maior solidão", pela possibilidade de ser superada por uma fé qualquer. "Qual será maior então?" Segue ele: A solidão de Carlitos, na eterna esquina no final de Luzes da cidade, que é justificada pelo sacrifício à mulher amada? A de Toulouse-Lautrec, no leito de morte, condenando o pai por tê-lo gerado um monstro? A do poeta Hart Crane, quando no ato da maior violência contra si, joga-se ao mar. Inenarrável solidão, conclui, mas povoada de beleza:
...
Dançaste muito, poeta
Entre os véus da água sombria
Coberto pela redoma
Da grande noite vazia?
De que segredos soubeste
Suspenso na crista agreste
Do imenso abismo sem meta?
Dançaste muito, poeta?
Que te disse a poesia?
(O Poeta Hart Crane Suicida-se no Mar – fragmento – in Antologia Poética)
O belo suplanta a solidão. Enfim chegamos, com o Poetinha, na maior solidão: é a daquele que se ausenta do mundo por fraqueza, por medo, o "que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo" Pois nada justificaria esta: "recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre." Porquanto este solitário justifique-se no criteriosamente escolhido esforço sisífico de semear pedras, dado o caráter trágico da escolha para uma vida inteira, vejo uma das maiores, não a maior, solidão. Qual será a maior, então?
A solidão da pessoa a quem negam o mundo. Nas anteriores, o eu nunca abandona ao solitário. Se porventura escolhe ficar a sós, às custas do mundo, há o diálogo interior. Indo um pouco mais além: mesmo a sós o eu pode-se realizar, seja pela arte, ou algum substituto que arregimente uma possibilidade de exteriorização, ainda que fútil, do eu. Mas o eu não se perde. A solidão a que me reporto por sua radicalidade exclui mesmo o colóquio do eu para consigo. Esta situação não é escolhida, mas sofrida. O solitário quer abrir-se ao mundo, mas lho recusam. Negando-lhe. Coagem-lhe à solidão. Encerra no peito a necessidade de ter sua identidade confirmada pela companhia de alguém. Amar alguém. Mas alguém não está lá. Por que alguém não quer estar lá. E se existe alguém com pretensões a este posto, ele não a ocupa pois não deseja partilhar seu mundo, dito de outro modo, não está lá. Nessa situação, o homem perde a confiança mais primordial: a confiança em si mesmo como interlocutor de seus próprios pensamentos. Sendo esta a pior solidão. Pois se perde, concomitantemente: o eu e o mundo, a capacidade de pensar, sentir e, portanto, de amar.
(Acima: H.de Toulouse-Lautrec, "Donna rossa con camicia bianca" - 65 x 45 olio su tela, 1889, Francia, proprietà privata.)