segunda-feira, maio 29, 2006

Empatia primeira

Sentou-se no balanço daquele parque e embalou-se. Tinha oitenta e dois anos, trinta com seu cachecol. De poucas palavras, sentia-se muito sozinho naqueles dias.
Um menininho, que por ali brincava, achou legal aquele velhinho estar num lugar onde, normalmente, ele vira crianças. Senta-se no balanço ao lado.
- O senhor também gosta de brincar?
- Não. Só do balanço.
- Eu tambem gosto do balanço. Minha mãe me empurra bem alto.
- Eu não tenho mãe. - disse secamente o velho.
- Não?? Claro que tem...todo mundo tem mãe!- com desenvoltura disse o garoto.
- Eu não tenho. Ela já morreu. Aliás, todo mundo. Você, eu, todo mundo um dia vai morrer.. ou se sentir sozinho.
O meninho, nenhum um pouco espantado com as lamúrias daquele velho, cujo cachecol lhe parecia alegre, falou:
- Ah... isso eu já sei. Meu pai me contou que um dia todos dormem pra sempre. - o garoto senta-se no chão - Mas meu pai nunca sabe responder pra onde as pessoas vão depois de morrerem... O senhor sabe?
- Ninguém sabe... talvez para o mesmo lugar de onde viemos.
- De onde a gente veio?
- Não lembro.

C.J.

sexta-feira, maio 26, 2006

O sono de tulipa - Diário de guerra 25-05-2006

Boa noite... Descanse... Amanhã é outro dia...Este já deu o que tinha para dar... Não comentaste comigo, mas logo concebo: tua tese, amigos, mais trabalho sobre a tese, algum projeto político, em seguida, dispôs de algum tempo para tuas idiossincrasias pré-hibernais..: De pantufas, escovas os dentes, o cabelo, etc, etc, etc... Vestiu, quem sabe, uma camisola (aquelas camisetas tamanho GGGG) que achas tão confortável, teu par de meias e finalmente deitas. E dormirás... E sonharás... Com o quê?.. Talvez com alguma aflição, algum medo, desejo... Tudo aquilo que não gostaria de admitir... Ou não: sonharás com tua tese, amigos, teu projeto político... Enfim, tudo o que a circunda... Triste, sorrio ao pensar se não houvesse dicotomia entre os teus e os meus, mas que houvesse apenas os nossos sonhos... Mas é melhor o silêncio... Ao velar teu sono, estarei atento à tua tranqüilidade como se nem estivesse junto a ti, o que factualmente é verdade... Mas não há só calmaria, perceberei alguns (não muitos) momentos agitação, naqueles momentos que tua meia (uma e apenas uma) aproveitando-se da tua distração, fugirá do pé... E tu dormes... E dormindo, descansarás... Eu ficarei ali... Apenas observando... Tencionando alisar teu rosto, retirando, assim, as melenas que insistem em cobri-lo... Mas querendo... Mas desejando colar minha boca na tua... Mas não é assim que a banda toca... pois a banda nunca tocou para nós... Teu sono não permitirá que veja minhas olheiras... Aquele cisco que teima em ficar nos meus olhos que produz algo como uma lágrima... Mas não te ocupes disto... Não te preocupes... Descansa... Amanhã terás um novo dia... E que longo dia este: tua tese, amigos, mais trabalho sobre a tese, algum projeto político... E não te preocupes, descansa... descansa e saibas: quando no cantar dos galos coçares os olhos, não mais estarei aqui...