quinta-feira, março 30, 2006

Apatia


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O mundo acontecia ali, diante de sua janela. Sua letargia era quase repugnante, não fosse o único imperativo que agia sobre ele naquelas últimas vinte e quatro horas: comprar fumo, macarrão instantâneo e café em pó. Apesar de outros vários compromissos e desejos que tinha, essa era a única obrigação que realmente sentia. Mas até então, ficara tão somente à janela observando a vida acontecer. Desde que acordara já haviam se passado horas. O suficiente para ver saírem e entrarem muitos dos moradores de seu prédio que até então desconhecia. A sua miséria seria quase tanta não fosse a iniciativa que tomara ao cair do sol: desceu para levar o lixo.

terça-feira, março 28, 2006

Diário de Guerra 26-03-2006

Meditações amorosas I
A Solidão
Advertência:
Neste primeiro domingo frio de dois mil e seis, enfastiado de meus estudos, resolvo me ocupar de minhas angústias. Por exclusão lógica chego a mais penosa: a solidão. Mas como falar disso sem cair em considerações fúteis? Ou piegas? Ou em algum -ismo ou –iano em suas abstrações que nunca dão alívio, mesmo que se pensem bálsamos? Não tenho uma certeza, apenas uma saída. Mesmo que obstantemente ela não elimine este algo que me enregela cada vez mais o peito ao menos a exteriorizo. Assim escolho um interlocutor para o exercício: Vinícius de Moraes. O exercício é tentar descobrir a pior solidão. A mais sofrível. Espero que o leitor usufrua deste opúsculo – perdoando sempre a deselegância pobre do estilo e as mostras de orgulho do autor, que se crê humilde, e que pretende encetar um diálogo com tão ilustre personagem. Vamos ao diálogo:

Terá razão Vinícius – mais especificamente no seu posicionamento na crônica Da solidão (in Vinicius de Moraes : O Poeta da paixão) – ao concluir qual é a maior solidão? Seu argumento se inicia pela solidão onde o amante é arrancado do seio da amada: O corvo (de Edgar Allan Poe) e a intolerável perda de Lenore; Orfeu que desce ao Hades à procura de Eurídice; Dante, aos quintos dos infernos, em busca de Beatriz. Mas conclui: "a solidão que a morte da mulher amada deixa não é, porquanto absoluta, a maior solidão", pela possibilidade de ser superada por uma fé qualquer. "Qual será maior então?" Segue ele: A solidão de Carlitos, na eterna esquina no final de Luzes da cidade, que é justificada pelo sacrifício à mulher amada? A de Toulouse-Lautrec, no leito de morte, condenando o pai por tê-lo gerado um monstro? A do poeta Hart Crane, quando no ato da maior violência contra si, joga-se ao mar. Inenarrável solidão, conclui, mas povoada de beleza:
...
Dançaste muito, poeta
Entre os véus da água sombria
Coberto pela redoma
Da grande noite vazia?
De que segredos soubeste
Suspenso na crista agreste
Do imenso abismo sem meta?

Dançaste muito, poeta?
Que te disse a poesia?
(O Poeta Hart Crane Suicida-se no Mar – fragmento – in Antologia Poética)

O belo suplanta a solidão. Enfim chegamos, com o Poetinha, na maior solidão: é a daquele que se ausenta do mundo por fraqueza, por medo, o "que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo" Pois nada justificaria esta: "recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre." Porquanto este solitário justifique-se no criteriosamente escolhido esforço sisífico de semear pedras, dado o caráter trágico da escolha para uma vida inteira, vejo uma das maiores, não a maior, solidão. Qual será a maior, então?
A solidão da pessoa a quem negam o mundo. Nas anteriores, o eu nunca abandona ao solitário. Se porventura escolhe ficar a sós, às custas do mundo, há o diálogo interior. Indo um pouco mais além: mesmo a sós o eu pode-se realizar, seja pela arte, ou algum substituto que arregimente uma possibilidade de exteriorização, ainda que fútil, do eu. Mas o eu não se perde. A solidão a que me reporto por sua radicalidade exclui mesmo o colóquio do eu para consigo. Esta situação não é escolhida, mas sofrida. O solitário quer abrir-se ao mundo, mas lho recusam. Negando-lhe. Coagem-lhe à solidão. Encerra no peito a necessidade de ter sua identidade confirmada pela companhia de alguém. Amar alguém. Mas alguém não está lá. Por que alguém não quer estar lá. E se existe alguém com pretensões a este posto, ele não a ocupa pois não deseja partilhar seu mundo, dito de outro modo, não está lá. Nessa situação, o homem perde a confiança mais primordial: a confiança em si mesmo como interlocutor de seus próprios pensamentos. Sendo esta a pior solidão. Pois se perde, concomitantemente: o eu e o mundo, a capacidade de pensar, sentir e, portanto, de amar.
(Acima: H.de Toulouse-Lautrec, "Donna rossa con camicia bianca" - 65 x 45 olio su tela, 1889, Francia, proprietà privata.)

Diário de Guerra 23-03-2006

Reminiscências – O plano infalível ou A corrida

"stat rosa pristina nomine,
nomina nuda tenemus"


Seu nome é Fabiane. O sobrenome não me recordo; por onde anda, com quem anda, se casada, solteira, se tem filhos, se viva ou morta, nada disso tenho ciência. Fabiane é seu primeiro nome, isso eu lembro e sei. Olhos verdes, cabelo sempre preso a rabo-de-cavalo, sorriso que caminhava entre o virginal e o malicioso, um delicado narizinho turco, a pele, algo bronzeada, exalava um suave perfume, quase imperceptível, mas que eu sentia. Estávamos na quinta série (era a segunda vez que o fazia, pois houvera reprovado no ano anterior) e tínhamos em torno de doze e treze anos. Ela a primeira da turma, sempre elogiada pelos professores, oito era sua nota mais baixa; de minha parte: repetente, as notas variavam entre o quatro e o seis, zoneiro e preguiçoso. Quando tínhamos trabalho em grupo, corria, fazia mil estripulias, mas sempre dava um jeito para realizá-lo junto a Fabiane. Simples: ela trabalhava, eu coçava, tirávamos dez, e todo mundo ficava feliz. Evidentemente, um ótimo acordo. Não lembro a data ou detalhe algum que possa localizar estes eventos mais precisamente do que o ano: 1994. Quando num desses trabalhinhos em dupla, me apercebi que gostava, no sentido forte do termo, dela. A princípio nem liguei, afinal éramos amigos e por que haveria de gostar dela? Nada de mais. Acreditei nisso, a princípio.
De modo sumário é válido dizer que neste inteirim começou o clichê: Da amizade infantil nasceu algo que extravasou qualquer sentimento que não fosse derivado desejo. Ou algo como aqueles versos que aprendi nestes anos juvenis: "Amor de estudante é uma porcaria, / começa no corredor e termina na secretaria." Mas esta lembrança não tem final feliz nem moral no fim da história. Mas apenas uma lembrança. E o clichê não pára por aí. Mal conseguia dormir pelo desejo de Fabiane. Sua imagem quando me aparecia naquelas noites insones - como a que me encontro agora, cujas causas diferem em gênero, número e grau – eram os motivos de meus ais de amor. Suspirava de desejo como se o ar que me preenchia os pulmões me trouxessem Fabiane para junto de mim. Nas aulas que nunca prestei a menor atenção, agora era gasta fitando-a de maneira tal que ruborizo só de lembrar. Era intransitável aquela situação. Precisava fazer algo. Mas o quê? Como exprimir tudo aquilo que mal compreendia? Como fugir do constrangimento de me confessar assim tão dela? Escrevi poemas imbecis, cartas nunca entregues, ouvia músicas e quem me vinha à lembrança? Respondo: Fabiane. Precisava de um plano. Um modo qualquer de falar tudo isso. Isso o quê? Não o sei. Mas sei que precisava. Até que por fim ele, o plano, me apareceu em sua simplicidade estonteante: a chamaria para conversar e falaria que gostava dela. Simples, prático, nada poético é bem verdade, mas funcionaria.
Era uma quarta-feira na semana anterior à semana de jogos da escola – que me lembra os versinhos: "Escola Estadual Ernani Vidal / Entra burro e sai marginal" hahaha – com o plano infalível em mente na primeira aula a abordei e disse: "Fabiane, depois das aulas preciso falar com você." Ao que respondeu: "Aham". Ótimo meu plano infalível estava funcionando. Mas se o leitor pensa que parei por aí, não foi bem assim: na segunda aula a abordei novamente e disse: "Fabiane, depois das aulas preciso falar com você." Ela responde: "Mas o que é?", "Depois da aula digo". Ponto para mim, além de meu plano infalível estar em perfeito funcionamento, o suspense criava uma expectativa que só poderia ser benéfica. E assim foi, na terceira aula, intervalo, quarta e quinta aulas. Aproximava-me e misteriosamente dizia: "Fabiane, depois da aula preciso falar com você." Enfim chega o final do dia letivo ela me aborda e pergunta: "Ei, me diga o que você queria." Respondo imediatamente: "Vamos lá pra cima que eu digo!" – este lá em cima é uma subida que permite ver toda a escola de um ponto privilegiado. – e seguimos nosso caminho. Eu calmo e confiante mas não tinha coragem de olhá-la. Mas a confiança foi passando e minhas pernas tremiam mais que motor de geladeira velha. Mas caminhava. Chegados lá em cima ela pergunta: "E aí?" Respiro profundamente e calmamente miro aqueles olhinhos tão azuis tão bonitos, que embora a voz não quisesse sair, com o resto da confiança que me havia sobrado digo: "Eu gosto de você!" Dito isto tudo muda, numa questão de pentelhonésimos de segundo me apercebo que era melhor ter ficado quieto; a pernas não tremiam mas vibravam a tal velocidade que a energia gasta naquele gesto poderia alimentar uma pequena cidade por uns dois dias; ela me fita como que esperando alguma reação minha que logo acontece: rapidamente me viro e corro, corro sem olhar para trás. Não paro e corro e corro e corro até chegar em casa. De lá não saí na quinta nem na sexta graças a uma inexplicável gripe que me deixou de cama. Na semana de jogos ela não apareceu. Não lembro o que aconteceu depois, mas nunca a beijei nem nada perto disto. Mas seu nome é Fabiane, isto eu lembro e sei.

Diário de Guerra 17-19/03/06


O concurso ou O fim do verão

A idéia era de uma simplicidade absurda: iríamos sexta-feira à Caiobá (bairro, ou algo assim, do município de Matinhos), faríamos no domingo a prova – para técnico administrativo da UFPR litoral – e voltaríamos na segunda-feira (dia 20). Esta simplicidade, porém, escondia duas coisas: 1) Obviamente não havia estudado nada para o dito concurso, e 2) Caiobá é uma praia que tem lá seu charme. Dadas essas premissas a conclusão é obvia: Curtir um monte, e ver algumas gatas bronzeadas de biquíni todas elas molhadinhas... nem que fosse pela água do mar. Bem o que aconteceu não foi nada disso.
Primeiro dia (17) Viagem e Mar
Como havíamos combinado, Marina – estagiária que trabalha comigo no Centro de Processamento Técnico (CPT) da Biblioteca Central (BC) da UFPR - e eu, pegaríamos o ônibus das sete e quinze da manhã, para chegar por volta das dez e ir logo a praia. Beleza, acordei às cinco e trinta da matina para tomar banho, café da manhã e peguei o coletivo (Bom Retiro – PUC) das seis e trinta. Até aí, tudo bem. Tão logo paguei minha passagem, percebi algo estranho: o motorista e o cobrador me cumprimentaram com um sorridente bom dia. Educadamente respondi e fui logo me sentar e curtir o mau-humor habitual da solitude matinal. E lá foi o ônibus cumprir seu destino. Para ficar ainda mais perplexo a cada passageiro que subia os funcionários cumprimentavam e prontamente eram respondidos, mas minha estranheza residia não no modo educado de todos aqueles seres, mas por eles serem amigos. Explico: durante todo o percurso que estive presente, todos conversavam animadamente sobre algum, como diria o Pedra, assunto aleatório. Pior: quando falavam algo engraçado, logo olhavam para mim como se esperassem alguma reação minha diante da comicidade do comentário. Evidentemente fingi que não era comigo, e seguia o percurso. Mas era batata: alguém ria e logo olhavam para mim. Parecia uma família feliz arrotando a sua aparente felicidade para que os infelizes se sentissem inferiorizados e quisessem participar dela. Mas como não sou infeliz (como diria Camus "Il faut imaginer Sisyphe heureux." – título de outro texto que oportunamente postarei) não liguei para os apelos espúrios deles e curtia meus pensamentos. Desço do coletivo e vejo que eles olhavam para mim, pensei em gentilmente mostrar meu dedo médio mas apenas continuei meu caminho sem me despedir da família feliz.
Desço a sete de setembro em direção à rodoviária, quando observo a alguns metros à minha frente uma gatinha: entre dezoito e vinte anos, loira, coxas grossas que tentavam se esconder sob a pequena saia branca de algodão (e que bundinha boa que ela tem). Blusinha branca com detalhes em miçangas. Todo este branco contrastava com seu corpo perfeitamente bronzeado. Nem perderei meu tempo com mais minúcias sobre aquele corpinho gostoso, que desfilava apenas para mim, às quinze para às sete da manhã, primeiro pois me faltam palavras para descreve-la e, segundo, mesmo que as tivesse não conseguiria nem palidamente ilustrar aquela belezura toda. De qualquer maneira, afrouxei o passo para vê-la naquele gingado de mulher boa que quando distraidamente mexe suas melenas mostra aquele cangote gostoso de morder. E a segui descaradamente até a rodoviária, pensando o quão maravilhoso seria sentar-me ao lado dela durante a viagem (ela estava com uma mochila), conversar com a cidadã, cantá-la e por fim tentar passar meus dedos naquela, a julgar pelo corpo, linda bocetinha. Sempre tentando convencê-la a pegar no meu pau. Sim, seria maravilhoso. Mas... as chances que ela pegasse o mesmo ônibus comigo parecia-me remota, e mesmo que tal fosse, ainda estaria sentado ao lado de Marina, minha companhia na viagem. E ainda esta cedesse seu lugar a ela, por que sentaria comigo? Isso sem falar que a moça poderia viajar com o namorado. E para acabar com qualquer vã expectativa: o que a faria pegar no meu pau? Mesmo assim como gostaria de lamber aquele corpinho dourado. Mas voltemos ao real: Ela entra na rodoviária e a sigo, meu embarque é no portão R2, e como sei onde fica o R fui direto ao local, e me despedi silenciosamente da menina. Encontrei Marina e falamos sobre algumas inutilidades. Comentei sobre a moça para ela, quando olho para trás a própria me encarava como quem houvesse escutado tudo, tim-tim por tim-tim. Retorno meu olhar mostro um sorriso amarelo para minha interlocutora e digo: "É essa!". Ela como havia pensado não estava só, a acompanhava o namorado (no decorrer da viagem percebi que não se tratava disso, mas era amigo dela), gordo é bem verdade, mas lutador de Jiu-Jitsu considerando as orelhas inchadas e carcomidas. Fingi que não era comigo e embarcamos.
Bem, criança e viagem são fatores inconjugáveis, e para nossa sorte uma, acompanhada com seus pais, estava presente na ida. O pior era que, por ser muito jovem aquele pedaço de gente, ela grunhia coisas que apenas seus pais compreendiam mas num tom tão alto que ao passar em meio a serra dava vontade de a fazer ir conversar com o Barão do Serro Azul. Para alívio de todos os passageiros ela conseguiu dormir. Marina também. Foi engraçado, Marina dormia, roncava e babava. (Nestas horas gostaria de ter uma câmera para registrar – leia-se sacanear – e mostrar a todos isso, hahaha). Mas enfim chegamos em nossa parada, na ‘igrejinha’ de Caiobá há uns quatrocentos metros da praia. A gatinha e seu cabeleireiro, digo amigo, desceram conosco.
Fomos ao apartamento da Ester (senhora que trabalha comigo no CPT) que fica a meia distância entre a dita igrejinha e o mar. O apê é um luxo, pequeno mas bem arrumado: dois quartos, sala, cozinha, dois banheiros, lavanderia. Uma pena não ter aceitado a oferta e tê-lo conhecido no carnaval. Mas ajeitamos algumas coisas e fomos à praia. Dado que a temporada terminara e que o outono começaria às quinze e trinta e cinco da segunda-feira, era óbvio que ela estava vazia. Deixei Marina tomando seu banho de sol e fui caminhar. Nada que valha a pena registrar, a não ser a falta das mulheres correndo (semi) nuas na praia. À noitinha fomos ao Campus da UFPR Litoral (Marina é comunista e queria pregar uns cartazes) foi quando vi o estado precário (embora o termo seja vago para caracterizar um lugar tão mal tratado como é lá) do campus. Visitei apenas uma sala de aula e lá não haviam terminado o acabamento da reforma, ou seja, não tinham colocado o forro e coisas assim. Macabro. Mas pior pra quem estuda lá.
Segundo dia (18) Sono e tédio
Durmo mal. A noite esteve recheada de pesadelos medonhos cujas imagens não lembro. Praticamente dormi e vi televisão o dia todo. Apenas fui à praia lá pelas dezesseis horas quando algumas nuvens escondiam o sol. Mas também não vi nenhuma musa do verão à toa passeando na praia. Voltei pra casa e fui ver tv.
Terceiro dia (19) Febre e prova
Durmo mal. A noite esteve recheada de pesadelos medonhos cujas imagens não lembro. Acordo e percebo meu corpo dolorido e as amídalas inchadas, gripe e tosse. Fodeu. Mas fui à praia mesmo assim: a conversa é outra. Está cheia, embora as gatinhas estivessem acompanhadas elas marcaram presença no meu domingo. Mas eis que quando estava a caminho de casa, eram onze e quinze e ainda tínhamos que arrumar a casa, suando mais por causa da febre do que de calor, vejo a musa do verão. Sim! É ela. A mesma que pegou ônibus comigo na vinda. Estávamos sem óculos de sol. E por isso ela percebeu que a olhava. Aquele corpo da cor do pecado vestia um biquíni branco. Os seios eram maiores que imaginara. Aquela delícia estava olhando para mim. Cruzamos novamente o mesmo caminho. É o destino! Olho bem nos olhos dela. Ela me encara e sorri. Ela se aproxima. Eu continuo caminhando e a fito naqueles lindos olhos azuis. Estou a dois passos dela. Olho mais fundo naqueles luzeiros que brilhavam só para mim e por fim viro a cabeça e vou pra casa.
A Prova estava fácil, para quem havia estudado. Como não era meu caso as questões de matemática estavam bem chatas de serem feitas. Algo febril, ia pigarreando e fazendo a dita. Terminei às quatro. Graças à gripe e a febre resolvemos (Marina também estava com esta gripe) voltar para Curitiba no domingo no ônibus das seis. Poderia voltar na segunda como o planejado, mas ficar mais um dia longe de casa sem ninguém para conversar, pois Marina falava mais com o namorado de São Paulo – por mensagens de celular ou ligações – que comigo. O som do diálogo de mim para comigo estava apenas me aborrecendo e me chateando. Melhor ir pra casa. E foi isso.

Diário de Guerra 23-02-2006

20
Reminiscências – O Cheiro

O rádio estava sintonizado na Ouro Verde (FM easy). Estava sentado, olhando para meus pés. Minha prima sentada ao meu lado já roia os nós dos dedos, unhas não havia mais. O funcionário estava atribulado, atendia ao telefone (que tocou ao menos umas 13 vezes, desde nossa chegada) e pedia desculpas, mas só havia um carro (o outro estava quebrado, como viemos a saber depois) atendendo naquela noite e agora se dirigia a São José dos Pinhais (Filho bêbado mata Pai – segundo a Tribuna do Paraná). Terem me acordado, me feito levantar, me vestir e termos vindo até aqui num carro que hoje está num ferro velho (para sorte dos transeuntes e automóveis em Curitiba), isso tudo é suportável. Mas o cheiro, aquele cheiro...
Começou, como já adiantei, quando dormia, quando de repente minha prima bate à porta. Obviamente não respondo. Ela insiste. Fico puto, mas não respondo. Ela abre a porta. E diz: "Neto, ‘ce ta dormindo?" Pensando agora poderia ter respondido: "Não, Sabrina, são onze e meia da noite e estou treinando boxe tailandês." Em vez disso respondi: "aham". Ao que replica: "Preciso que você vá comigo até o IML, pra reconhecer o corpo do Fabrício." Pensei em responder (com o mau-humor característico de quando me acordam): "Se é o corpo do Fabrício, então já está identificado!." Mas diante da situação, levantei, fui me vestir... No carro, meu primo dirigia enquanto ela me explica esta escalada de loucura: Minha tia ouviu no rádio que havia um homem tatuado com tais e tais características que lá estava há já três dias, e ninguém ainda o havia reconhecido. E como o Fabrício é hippie, ela ficou preocupada, pois ele sempre está viajando por aí, (e nunca se sabe né? E todo esse blá, blá, blá...) Diante disso o IML nos permitiu, em caráter especial irmos lá fora do horário comercial (!?) pra identificarmos o corpo.
Meus problemas começam quando percebo por quê estou indo, meu primo não vai entrar para ver o defunto, muito menos minha prima, pois caso fosse seu ex-amante, entraria em pânico, essas coisas de mulher. Depois de termos chego esperamos mais de quarenta minutos (até hoje não sabemos porquê) para eu ver o dito cujo. Passado esse tempo todo, entre telefonemas, sempre respondidos com desculpas pelo funcionário, fui até a geladeira. Ao caminhar em direção ao mortuário o cheiro, aquele cheiro, aumentava. Ao entrar me deparo com uma sala não muito espaçosa com três macas cobertas com papel jornal (sim, daqueles que embrulham a carne que você compra no açougue), nas paredes gavetas (‘geladeiras’ onde ficam os corpos). Mais que rapidamente o funcionário me faz ficar diante de uma das macas, e mais rápido ainda retira o papel jornal. Horror! Jazia bem em minha frente um cadáver mutilado... Mutilado é pouco. Desovado, creio que seria o termo adequado: as pernas, os braços, seu pau, e sua cabeça – que morbidamente exibia a ponta da língua – separados do corpo. Enquanto crescia meu horror diante daquilo, o funcionário me indicava particularidades que poderiam caracterizar nosso conhecido. Mas o cheiro, aquele cheiro, provinha do presunto. Engulo em seco e permaneço firme. Por sorte não era o Fabrício. Revejo minha prima, com os olhos esbugalhados, que grunhi: "E aí...?"
Isso está para fazer um ano, mal lembro a data exata, mas quando me recordo disso logo sinto o cheiro, aquele cheiro...

Diário de Guerra 22-02-2006

Reflexões na calada da noite ou A pedra novamente encontra o solo

Compartilho minhas horas mais doces com a tristeza. Tristeza de não se saber amado. Saudoso dos antigos amores, não pelo que foram de fato mas o significado intrínseco que imaginava, sentia, ou apenas cria, em cada um deles; a monografia, como um fantasma do natal passado, me assombra. O dinheiro no banco, ou antes sua ausência nele, me acabrunha ainda mais. Nesse instante torno-me palhaço das perdidas ilusões. A confiança, o orgulho de si, tudo é passado. E só se passaram seis anos. Não me reconheço mais. Mas vejo um pérfido: que amou sem ter amor, riu quando queria chorar, sorriu para quem não merecia, guardou rancor por ninharias, que desistiu quando podia vencer, lutou quando se sabia perdedor. Vejo, portanto, um rancoroso que em seus sonhos mais mesquinhos esqueceu-se do mais importante: de si mesmo. Caminhando por esta rua enlameada segue meu pensamento. Sem amor, sem dinheiro, no epílogo da faculdade, nem as patifarias adolescentes me fazem rir, estamos sós, apenas eu e a tristeza como escudeira. Mas eis que furtivamente entra, nunca pela porta, mas pela janela, o 'se'. Tento ignorá-lo, e por alguns instantes consigo, e me penso salvo de suas inocentes artimanhas. Mas a inocência vence a fraca resolução; como a criança, em seus jogos, vence o ancião. Os músculos relaxam, mas não é a morte ou, o seu substituto nosso de cada dia, o sono. É ela! Com seu ar meigo, passos macios, que me vem. Tão logo beira meus ouvidos, inicia a litania. O 'se', antes hipótese, transubstancia-se em verdade; e me delicio com o amargor de suas quimeras. O silêncio que nos embala em seu ritmo suave de não-ser, faz-me cantar canções que nunca soube, e quando tinha a letra, esquecia-me de cantá-la. O coração, em seus tic-tacs, já é cansado de sua recorrente badalada (e só tenho vinte e quatro anos). Mas quando ela me vem, ele percute como uma valsa louca, sem eira nem beira, no imo peito. (A tristeza, como testemunha, balança a cabeça e dá de ombros. Como a amada que se compreende único refúgio do amante.) Minhas mãos, que no geral, se despistam diante do carinho que não proporcionam; quando aquelas verdades aparecem, qual leveza, qual delicadeza, tocam o nada. A respiração que sempre puxa mais ar, como quem aspira algo que não está ali; à presença do "se" algumas dezenas de rosas preenchem o quarto. Vergadas ao macio soprar do vento em manhã primaveril. Mas ela se esvai, levando consigo o 'se'; ficando apenas eu e a tristeza que me fita em silêncio. Mas a vida segue, amanhã é outro dia; e com esse pensamento durmo. Acordo, mas finjo dormir. Não adianta se esconder, o mundo chama. Com o suor de meu rosto, e o labor de minhas mãos devo trabalhar para... não o sei... dignificar-me, talvez... Para quê? mas não devo pensar. (Lembro-me da música que mamãe embalava-me quando guri, "Não posso parar, se eu parar eu penso, se eu penso, choro...") Fico mecânico, assim não há angústia: levanto, devoro algo, vou ao banheiro, tomo banho, seco-me, visito-me e por fim ganho a rua. Não vou só, a tristeza me é fiel. Chegado ao escritório, finjo trabalhar. Mas não faço nada simplesmente, escrevo. Escrevo isto que o leitor tem diante dos olhos: "Olho pela janela, e tendo a morte por horizonte, contemplo o céu."

Diário de Guerra 24-25/12/2005

Véspera de natal. O saracotear de minha mãe ocupa toda a cozinha: abre a geladeira, pega algo, fecha-a, prepara algo, abre-a novamente, guarda algo, e torna a fecha-la. Instantes depois: abre o forno, tempero, deita mais tempero, fecha o forno. Embora o cheiro do assado me agrade, fujo para junto de meu pai. Olhos fixo na tv, não me percebe. Troca o canal, nisto acendo um cigarro. Troca o canal, dou uma baforada. Troca de canal... Entre um trago e uma troca, imagens felizes desejam feliz natal e vendem algo. Não necessariamente nesta mesma ordem. Saio, tomo outro banho à espera da ceia. Que por fim vem. Comemos, bebemos, rimos e tudo o mais. Vem a troca de presentes. Fico contente, afinal, estava precisando de meias. Recebo uma mensagem no celular: "Feliz natal! Papai noel disse q ia deixar meu presente na tua casa. Não esqueca d me entregar hein? Haha. Bj". Nada mais, nada menos que meu desjo de adolescente: Priscila. Telefono e conversamos. Está em compania de amigos. Combino um retorno dali há uns quinze minutos para fazermos algo nesta noite feliz. Antes, porém, teria que me comunicar com o Vinícius pois havíamos marcado uma bebederia para hoje. Ligo, mas ele dorme: pílulas. Sobrevém o desânimo. Deito. Novamente desisto da Pri. Fecho os olhos. Toca o telefone: Priscila, a dos Anjos, e sua irmã Regina. Trocamos algumas palavras. Comenta sobre uma possível balada. Me acovardo e finjo preguiça. Nos despedimos. Uma noite, duas Priscilas, o mesmo erro. Injuriado, resolvo dar uma volta. Encontro um posto de gasolina, abasteço: tomo três cervejas trocando conceitos com o frentista. Compro mais uma e me despeço. Volto para casa, outro caminho. A meio caminho de casa, estacionado, um gol e adiante um carro de polícia. A janela do carona do automóvel vermelho está quebrado. O policial anota algo num bloco. O motorista mostra-se furioso. Sigo meu caminho. No dobrar da esquina: um carrinho, desses de puxar papelão, está parado. À sua frente uma mulher ajoelhada, cabeça levemente apoiada sobre os dedos magros, reza. Logo compreendo a situação: seu irmão, ou algo assim, pede uma esmola. O carro vermelho nega. O irmão insiste. O carro xinga. Pedra, mão, vidro, estilhaço, fuga, polícia! Tenho quase certeza, é o marido. Pois percebo uma criança de dois, três anos, que entre papelões e ranho começa a soluçar. A mãe me percebe. Olha-me nos olhos. Vejo o reflexo do mercúrio em seu rosto. Tomo um gole da cerveja e sigo meu caminho.