segunda-feira, abril 17, 2006

O Jardim - Diário de Guerra 16-04-06


Tenho um jardim, embora não muito grande. Mas cuido dele com certa estima. Passados os bons tempos de plantio (primavera e verão) decidi não sem tristeza forrá-lo com britas para que o frio que se anuncia não estrague o solo. Com cuidado, retirei as ervas-daninhas que ali e aqui adornavam meu horto. Porquanto algumas tinham raízes muito profundas – e como não se trata apenas de puxá-las – escavei até às profundezas para que seus restos não consumissem mais nutrientes para não deixar o solo pobre. Não obstante compreenda que sempre restará grão que resistiria à limpa mais atenciosa, não abandonei meu plano. Lembro de uma época que deixei de lado a monda – por ingenuidade, desatenção, imaturidade, sei lá – em meu jardim cresceram as mais variadas ervas: enquanto umas em sua quimérica beleza que me deixavam aturdido mas que não passavam de mato do mais vulgar, outras que cresceram sem graça, assim imperceptíveis por sua vulgaridade, mas que se tornaram robustas e ainda mais belas. Mas o zelo excessivo tem seu preço: algumas morreram pois deveria deixar a natureza seguir seu rumo. Mas isso tudo é passado. Estas lembranças só incomodam, sem contar que acontece o tempo todo em qualquer jardim. Terminada a limpeza de aparência, resolvi gastar um tempo com um intervalo, ou o que significa o mesmo, um café e alguns cigarros. E volto à labuta: Cubro o solo com as pequenas pedrinhas, uma camada de dois centímetros, para ser exato, e dou o trabalho por encerrado. Só iria me preocupar com isso novamente no início de setembro. Novo dia. Estudo com certa tranqüilidade e, em meio a livros e café, resolvo parar e apreciar minhas pedrinhas recém cultivadas. Abro a janela e sobrevém o susto: bem ao centro do jardim, nasceu uma rosa.

Findo o sobressalto, vejo mais de perto. Sim, meu olhos não me enganam. É uma rosa. Mas como? Que teria ocorrido para que ela sem mais nem mais viesse nascer tão repentinamente? Não há que eu saiba nenhuma roseira aqui perto que nem em sonhos mais desvairados pudesse de alguma maneira ter permitido vir à luz imprevisto tão belo como esse. Mas o que mais me intrigava era: Por que no meu jardim? Logo agora, que houvera decidido pela esterilidade de meu horto? Sem respostas, cumpre ao menos vê-la em sua beleza singular. O caule é verdinho, verde apenas quebrado pelos assustadores espinhos que salpicavam todo ele que mudavam de tom abruptamente: do verde ao marrom da imbuia. As pétalas que ainda não haviam decido a cor, estavam em botão. Esta doce brancura contrastando com o verdinho e com o assustador marrom torna meu coração mais inquieto. Deveria podá-la? Ou antes nutri-la, tomá-la como amante? Irei me ferir nestes espinhos tão afiados? Sua doçura iria sobreviver ao meu descuido habitual? Sua delicadeza seria esgotada pelas minhas mãos tão grosseiras? Ou as geadas iriam consumi-la? Perguntas demais, repostas de menos. Estou a apreciá-la. O prazer a que me permito talvez seja meu pecado. Doce pecado esse o meu. Mas veremos. De qualquer modo, contemplo-a, sentado à sua frente. À mão direita uma tesoura, à esquerda adubo.

2 comentários:

Eumolpo disse...

eh verdade, mas normal
no fim sempre eh uma historia pra dar umas risadas

C.J. disse...

tal qual William Blake e seu jardim...
...o infinito em uma hora, o mundo num grão de areia, o universo na palma da mão..
Era assim no jardim de Blake..

Quem veio antes, o jardim ou o jardineiro? Certamente o jardineiro... pois a mata virgem podee tomar forma nas mãos de quem cultiva e cuida.