terça-feira, março 28, 2006

Diário de Guerra 23-02-2006

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Reminiscências – O Cheiro

O rádio estava sintonizado na Ouro Verde (FM easy). Estava sentado, olhando para meus pés. Minha prima sentada ao meu lado já roia os nós dos dedos, unhas não havia mais. O funcionário estava atribulado, atendia ao telefone (que tocou ao menos umas 13 vezes, desde nossa chegada) e pedia desculpas, mas só havia um carro (o outro estava quebrado, como viemos a saber depois) atendendo naquela noite e agora se dirigia a São José dos Pinhais (Filho bêbado mata Pai – segundo a Tribuna do Paraná). Terem me acordado, me feito levantar, me vestir e termos vindo até aqui num carro que hoje está num ferro velho (para sorte dos transeuntes e automóveis em Curitiba), isso tudo é suportável. Mas o cheiro, aquele cheiro...
Começou, como já adiantei, quando dormia, quando de repente minha prima bate à porta. Obviamente não respondo. Ela insiste. Fico puto, mas não respondo. Ela abre a porta. E diz: "Neto, ‘ce ta dormindo?" Pensando agora poderia ter respondido: "Não, Sabrina, são onze e meia da noite e estou treinando boxe tailandês." Em vez disso respondi: "aham". Ao que replica: "Preciso que você vá comigo até o IML, pra reconhecer o corpo do Fabrício." Pensei em responder (com o mau-humor característico de quando me acordam): "Se é o corpo do Fabrício, então já está identificado!." Mas diante da situação, levantei, fui me vestir... No carro, meu primo dirigia enquanto ela me explica esta escalada de loucura: Minha tia ouviu no rádio que havia um homem tatuado com tais e tais características que lá estava há já três dias, e ninguém ainda o havia reconhecido. E como o Fabrício é hippie, ela ficou preocupada, pois ele sempre está viajando por aí, (e nunca se sabe né? E todo esse blá, blá, blá...) Diante disso o IML nos permitiu, em caráter especial irmos lá fora do horário comercial (!?) pra identificarmos o corpo.
Meus problemas começam quando percebo por quê estou indo, meu primo não vai entrar para ver o defunto, muito menos minha prima, pois caso fosse seu ex-amante, entraria em pânico, essas coisas de mulher. Depois de termos chego esperamos mais de quarenta minutos (até hoje não sabemos porquê) para eu ver o dito cujo. Passado esse tempo todo, entre telefonemas, sempre respondidos com desculpas pelo funcionário, fui até a geladeira. Ao caminhar em direção ao mortuário o cheiro, aquele cheiro, aumentava. Ao entrar me deparo com uma sala não muito espaçosa com três macas cobertas com papel jornal (sim, daqueles que embrulham a carne que você compra no açougue), nas paredes gavetas (‘geladeiras’ onde ficam os corpos). Mais que rapidamente o funcionário me faz ficar diante de uma das macas, e mais rápido ainda retira o papel jornal. Horror! Jazia bem em minha frente um cadáver mutilado... Mutilado é pouco. Desovado, creio que seria o termo adequado: as pernas, os braços, seu pau, e sua cabeça – que morbidamente exibia a ponta da língua – separados do corpo. Enquanto crescia meu horror diante daquilo, o funcionário me indicava particularidades que poderiam caracterizar nosso conhecido. Mas o cheiro, aquele cheiro, provinha do presunto. Engulo em seco e permaneço firme. Por sorte não era o Fabrício. Revejo minha prima, com os olhos esbugalhados, que grunhi: "E aí...?"
Isso está para fazer um ano, mal lembro a data exata, mas quando me recordo disso logo sinto o cheiro, aquele cheiro...

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