Reflexões na calada da noite ou A pedra novamente encontra o solo
Compartilho minhas horas mais doces com a tristeza. Tristeza de não se saber amado. Saudoso dos antigos amores, não pelo que foram de fato mas o significado intrínseco que imaginava, sentia, ou apenas cria, em cada um deles; a monografia, como um fantasma do natal passado, me
assombra. O dinheiro no banco, ou antes sua ausência nele, me acabrunha ainda mais. Nesse instante torno-me palhaço das perdidas ilusões. A confiança, o orgulho de si, tudo é passado. E só se passaram seis anos. Não me reconheço mais. Mas vejo um pérfido: que amou sem ter amor, riu quando queria chorar, sorriu para quem não merecia, guardou rancor por ninharias, que desistiu quando podia vencer, lutou quando se sabia perdedor. Vejo, portanto, um rancoroso que em seus sonhos mais mesquinhos esqueceu-se do mais importante: de si mesmo. Caminhando por esta rua enlameada segue meu pensamento. Sem amor, sem dinheiro, no epílogo da faculdade, nem as patifarias adolescentes me fazem rir, estamos sós, apenas eu e a tristeza como escudeira. Mas eis que furtivamente entra, nunca pela porta, mas pela janela, o 'se'. Tento ignorá-lo, e por alguns instantes consigo, e me penso salvo de suas inocentes artimanhas. Mas a inocência vence a fraca resolução; como a criança, em seus jogos, vence o ancião. Os músculos relaxam, mas não é a morte ou, o seu substituto nosso de cada dia, o sono. É ela! Com seu ar meigo, passos macios, que me vem. Tão logo beira meus ouvidos, inicia a litania. O 'se', antes hipótese, transubstancia-se em verdade; e me delicio com o amargor de suas quimeras. O silêncio que nos embala em seu ritmo suave de não-ser, faz-me cantar canções que nunca soube, e quando tinha a letra, esquecia-me de cantá-la. O coração, em seus tic-tacs, já é cansado de sua recorrente badalada (e só tenho vinte e quatro anos). Mas quando ela me vem, ele percute como uma valsa louca, sem eira nem beira, no imo peito. (A tristeza, como testemunha, balança a cabeça e dá de ombros. Como a amada que se compreende único refúgio do amante.) Minhas mãos, que no geral, se despistam diante do carinho que não proporcionam; quando aquelas verdades aparecem, qual leveza, qual delicadeza, tocam o nada. A respiração que sempre puxa mais ar, como quem aspira algo que não está ali; à presença do "se" algumas dezenas de rosas preenchem o quarto. Vergadas ao macio soprar do vento em manhã primaveril. Mas ela se esvai, levando consigo o 'se'; ficando apenas eu e a tristeza que me fita em silêncio. Mas a vida segue, amanhã é outro dia; e com esse pensamento durmo. Acordo, mas finjo dormir. Não adianta se esconder, o mundo chama. Com o suor de meu rosto, e o labor de minhas mãos devo trabalhar para... não o sei... dignificar-me, talvez... Para quê? mas não devo pensar. (Lembro-me da música que mamãe embalava-me quando guri, "Não posso parar, se eu parar eu penso, se eu penso, choro...") Fico mecânico, assim não há angústia: levanto, devoro algo, vou ao banheiro, tomo banho, seco-me, visito-me e por fim ganho a rua. Não vou só, a tristeza me é fiel. Chegado ao escritório, finjo trabalhar. Mas não faço nada simplesmente, escrevo. Escrevo isto que o leitor tem diante dos olhos: "Olho pela janela, e tendo a morte por horizonte, contemplo o céu."
Compartilho minhas horas mais doces com a tristeza. Tristeza de não se saber amado. Saudoso dos antigos amores, não pelo que foram de fato mas o significado intrínseco que imaginava, sentia, ou apenas cria, em cada um deles; a monografia, como um fantasma do natal passado, me
assombra. O dinheiro no banco, ou antes sua ausência nele, me acabrunha ainda mais. Nesse instante torno-me palhaço das perdidas ilusões. A confiança, o orgulho de si, tudo é passado. E só se passaram seis anos. Não me reconheço mais. Mas vejo um pérfido: que amou sem ter amor, riu quando queria chorar, sorriu para quem não merecia, guardou rancor por ninharias, que desistiu quando podia vencer, lutou quando se sabia perdedor. Vejo, portanto, um rancoroso que em seus sonhos mais mesquinhos esqueceu-se do mais importante: de si mesmo. Caminhando por esta rua enlameada segue meu pensamento. Sem amor, sem dinheiro, no epílogo da faculdade, nem as patifarias adolescentes me fazem rir, estamos sós, apenas eu e a tristeza como escudeira. Mas eis que furtivamente entra, nunca pela porta, mas pela janela, o 'se'. Tento ignorá-lo, e por alguns instantes consigo, e me penso salvo de suas inocentes artimanhas. Mas a inocência vence a fraca resolução; como a criança, em seus jogos, vence o ancião. Os músculos relaxam, mas não é a morte ou, o seu substituto nosso de cada dia, o sono. É ela! Com seu ar meigo, passos macios, que me vem. Tão logo beira meus ouvidos, inicia a litania. O 'se', antes hipótese, transubstancia-se em verdade; e me delicio com o amargor de suas quimeras. O silêncio que nos embala em seu ritmo suave de não-ser, faz-me cantar canções que nunca soube, e quando tinha a letra, esquecia-me de cantá-la. O coração, em seus tic-tacs, já é cansado de sua recorrente badalada (e só tenho vinte e quatro anos). Mas quando ela me vem, ele percute como uma valsa louca, sem eira nem beira, no imo peito. (A tristeza, como testemunha, balança a cabeça e dá de ombros. Como a amada que se compreende único refúgio do amante.) Minhas mãos, que no geral, se despistam diante do carinho que não proporcionam; quando aquelas verdades aparecem, qual leveza, qual delicadeza, tocam o nada. A respiração que sempre puxa mais ar, como quem aspira algo que não está ali; à presença do "se" algumas dezenas de rosas preenchem o quarto. Vergadas ao macio soprar do vento em manhã primaveril. Mas ela se esvai, levando consigo o 'se'; ficando apenas eu e a tristeza que me fita em silêncio. Mas a vida segue, amanhã é outro dia; e com esse pensamento durmo. Acordo, mas finjo dormir. Não adianta se esconder, o mundo chama. Com o suor de meu rosto, e o labor de minhas mãos devo trabalhar para... não o sei... dignificar-me, talvez... Para quê? mas não devo pensar. (Lembro-me da música que mamãe embalava-me quando guri, "Não posso parar, se eu parar eu penso, se eu penso, choro...") Fico mecânico, assim não há angústia: levanto, devoro algo, vou ao banheiro, tomo banho, seco-me, visito-me e por fim ganho a rua. Não vou só, a tristeza me é fiel. Chegado ao escritório, finjo trabalhar. Mas não faço nada simplesmente, escrevo. Escrevo isto que o leitor tem diante dos olhos: "Olho pela janela, e tendo a morte por horizonte, contemplo o céu."
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