
O concurso ou O fim do verão
A idéia era de uma simplicidade absurda: iríamos sexta-feira à Caiobá (bairro, ou algo assim, do município de Matinhos), faríamos no domingo a prova – para técnico administrativo da UFPR litoral – e voltaríamos na segunda-feira (dia 20). Esta simplicidade, porém, escondia duas coisas: 1) Obviamente não havia estudado nada para o dito concurso, e 2) Caiobá é uma praia que tem lá seu charme. Dadas essas premissas a conclusão é obvia: Curtir um monte, e ver algumas gatas bronzeadas de biquíni todas elas molhadinhas... nem que fosse pela água do mar. Bem o que aconteceu não foi nada disso.
Primeiro dia (17) Viagem e Mar
Como havíamos combinado, Marina – estagiária que trabalha comigo no Centro de Processamento Técnico (CPT) da Biblioteca Central (BC) da UFPR - e eu, pegaríamos o ônibus das sete e quinze da manhã, para chegar por volta das dez e ir logo a praia. Beleza, acordei às cinco e trinta da matina para tomar banho, café da manhã e peguei o coletivo (Bom Retiro – PUC) das seis e trinta. Até aí, tudo bem. Tão logo paguei minha passagem, percebi algo estranho: o motorista e o cobrador me cumprimentaram com um sorridente bom dia. Educadamente respondi e fui logo me sentar e curtir o mau-humor habitual da solitude matinal. E lá foi o ônibus cumprir seu destino. Para ficar ainda mais perplexo a cada passageiro que subia os funcionários cumprimentavam e prontamente eram respondidos, mas minha estranheza residia não no modo educado de todos aqueles seres, mas por eles serem amigos. Explico: durante todo o percurso que estive presente, todos conversavam animadamente sobre algum, como diria o Pedra, assunto aleatório. Pior: quando falavam algo engraçado, logo olhavam para mim como se esperassem alguma reação minha diante da comicidade do comentário. Evidentemente fingi que não era comigo, e seguia o percurso. Mas era batata: alguém ria e logo olhavam para mim. Parecia uma família feliz arrotando a sua aparente felicidade para que os infelizes se sentissem inferiorizados e quisessem participar dela. Mas como não sou infeliz (como diria Camus "Il faut imaginer Sisyphe heureux." – título de outro texto que oportunamente postarei) não liguei para os apelos espúrios deles e curtia meus pensamentos. Desço do coletivo e vejo que eles olhavam para mim, pensei em gentilmente mostrar meu dedo médio mas apenas continuei meu caminho sem me despedir da família feliz.
Desço a sete de setembro em direção à rodoviária, quando observo a alguns metros à minha frente uma gatinha: entre dezoito e vinte anos, loira, coxas grossas que tentavam se esconder sob a pequena saia branca de algodão (e que bundinha boa que ela tem). Blusinha branca com detalhes em miçangas. Todo este branco contrastava com seu corpo perfeitamente bronzeado. Nem perderei meu tempo com mais minúcias sobre aquele corpinho gostoso, que desfilava apenas para mim, às quinze para às sete da manhã, primeiro pois me faltam palavras para descreve-la e, segundo, mesmo que as tivesse não conseguiria nem palidamente ilustrar aquela belezura toda. De qualquer maneira, afrouxei o passo para vê-la naquele gingado de mulher boa que quando distraidamente mexe suas melenas mostra aquele cangote gostoso de morder. E a segui descaradamente até a rodoviária, pensando o quão maravilhoso seria sentar-me ao lado dela durante a viagem (ela estava com uma mochila), conversar com a cidadã, cantá-la e por fim tentar passar meus dedos naquela, a julgar pelo corpo, linda bocetinha. Sempre tentando convencê-la a pegar no meu pau. Sim, seria maravilhoso. Mas... as chances que ela pegasse o mesmo ônibus comigo parecia-me remota, e mesmo que tal fosse, ainda estaria sentado ao lado de Marina, minha companhia na viagem. E ainda esta cedesse seu lugar a ela, por que sentaria comigo? Isso sem falar que a moça poderia viajar com o namorado. E para acabar com qualquer vã expectativa: o que a faria pegar no meu pau? Mesmo assim como gostaria de lamber aquele corpinho dourado. Mas voltemos ao real: Ela entra na rodoviária e a sigo, meu embarque é no portão R2, e como sei onde fica o R fui direto ao local, e me despedi silenciosamente da menina. Encontrei Marina e falamos sobre algumas inutilidades. Comentei sobre a moça para ela, quando olho para trás a própria me encarava como quem houvesse escutado tudo, tim-tim por tim-tim. Retorno meu olhar mostro um sorriso amarelo para minha interlocutora e digo: "É essa!". Ela como havia pensado não estava só, a acompanhava o namorado (no decorrer da viagem percebi que não se tratava disso, mas era amigo dela), gordo é bem verdade, mas lutador de Jiu-Jitsu considerando as orelhas inchadas e carcomidas. Fingi que não era comigo e embarcamos.
Bem, criança e viagem são fatores inconjugáveis, e para nossa sorte uma, acompanhada com seus pais, estava presente na ida. O pior era que, por ser muito jovem aquele pedaço de gente, ela grunhia coisas que apenas seus pais compreendiam mas num tom tão alto que ao passar em meio a serra dava vontade de a fazer ir conversar com o Barão do Serro Azul. Para alívio de todos os passageiros ela conseguiu dormir. Marina também. Foi engraçado, Marina dormia, roncava e babava. (Nestas horas gostaria de ter uma câmera para registrar – leia-se sacanear – e mostrar a todos isso, hahaha). Mas enfim chegamos em nossa parada, na ‘igrejinha’ de Caiobá há uns quatrocentos metros da praia. A gatinha e seu cabeleireiro, digo amigo, desceram conosco.
Fomos ao apartamento da Ester (senhora que trabalha comigo no CPT) que fica a meia distância entre a dita igrejinha e o mar. O apê é um luxo, pequeno mas bem arrumado: dois quartos, sala, cozinha, dois banheiros, lavanderia. Uma pena não ter aceitado a oferta e tê-lo conhecido no carnaval. Mas ajeitamos algumas coisas e fomos à praia. Dado que a temporada terminara e que o outono começaria às quinze e trinta e cinco da segunda-feira, era óbvio que ela estava vazia. Deixei Marina tomando seu banho de sol e fui caminhar. Nada que valha a pena registrar, a não ser a falta das mulheres correndo (semi) nuas na praia. À noitinha fomos ao Campus da UFPR Litoral (Marina é comunista e queria pregar uns cartazes) foi quando vi o estado precário (embora o termo seja vago para caracterizar um lugar tão mal tratado como é lá) do campus. Visitei apenas uma sala de aula e lá não haviam terminado o acabamento da reforma, ou seja, não tinham colocado o forro e coisas assim. Macabro. Mas pior pra quem estuda lá.
Segundo dia (18) Sono e tédio
Durmo mal. A noite esteve recheada de pesadelos medonhos cujas imagens não lembro. Praticamente dormi e vi televisão o dia todo. Apenas fui à praia lá pelas dezesseis horas quando algumas nuvens escondiam o sol. Mas também não vi nenhuma musa do verão à toa passeando na praia. Voltei pra casa e fui ver tv.
Terceiro dia (19) Febre e prova
Durmo mal. A noite esteve recheada de pesadelos medonhos cujas imagens não lembro. Acordo e percebo meu corpo dolorido e as amídalas inchadas, gripe e tosse. Fodeu. Mas fui à praia mesmo assim: a conversa é outra. Está cheia, embora as gatinhas estivessem acompanhadas elas marcaram presença no meu domingo. Mas eis que quando estava a caminho de casa, eram onze e quinze e ainda tínhamos que arrumar a casa, suando mais por causa da febre do que de calor, vejo a musa do verão. Sim! É ela. A mesma que pegou ônibus comigo na vinda. Estávamos sem óculos de sol. E por isso ela percebeu que a olhava. Aquele corpo da cor do pecado vestia um biquíni branco. Os seios eram maiores que imaginara. Aquela delícia estava olhando para mim. Cruzamos novamente o mesmo caminho. É o destino! Olho bem nos olhos dela. Ela me encara e sorri. Ela se aproxima. Eu continuo caminhando e a fito naqueles lindos olhos azuis. Estou a dois passos dela. Olho mais fundo naqueles luzeiros que brilhavam só para mim e por fim viro a cabeça e vou pra casa.
A Prova estava fácil, para quem havia estudado. Como não era meu caso as questões de matemática estavam bem chatas de serem feitas. Algo febril, ia pigarreando e fazendo a dita. Terminei às quatro. Graças à gripe e a febre resolvemos (Marina também estava com esta gripe) voltar para Curitiba no domingo no ônibus das seis. Poderia voltar na segunda como o planejado, mas ficar mais um dia longe de casa sem ninguém para conversar, pois Marina falava mais com o namorado de São Paulo – por mensagens de celular ou ligações – que comigo. O som do diálogo de mim para comigo estava apenas me aborrecendo e me chateando. Melhor ir pra casa. E foi isso.
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