Reminiscências – O plano infalível ou A corrida
"stat rosa pristina nomine,
nomina nuda tenemus"
Seu nome é Fabiane. O sobrenome não me recordo; por onde anda, com quem anda, se casada, solteira, se tem filhos, se viva ou morta, nada disso tenho ciência. Fabiane é seu primeiro nome, isso eu lembro e sei. Olhos verdes, cabelo sempre preso a rabo-de-cavalo, sorriso que caminhava entre o virginal e o malicioso, um delicado narizinho turco, a pele, algo bronzeada, exalava um suave perfume, quase imperceptível, mas que eu sentia. Estávamos na quinta série (era a segunda vez que o fazia, pois houvera reprovado no ano anterior) e tínhamos em torno de doze e treze anos. Ela a primeira da turma, sempre elogiada pelos professores, oito era sua nota mais baixa; de minha parte: repetente, as notas variavam entre o quatro e o seis, zoneiro e preguiçoso. Quando tínhamos trabalho em grupo, corria, fazia mil estripulias, mas sempre dava um jeito para realizá-lo junto a Fabiane. Simples: ela trabalhava, eu coçava, tirávamos dez, e todo mundo ficava feliz. Evidentemente, um ótimo acordo. Não lembro a data ou detalhe algum que possa localizar estes eventos mais precisamente do que o ano: 1994. Quando num desses trabalhinhos em dupla, me apercebi que gostava, no sentido forte do termo, dela. A princípio nem liguei, afinal éramos amigos e por que haveria de gostar dela? Nada de mais. Acreditei nisso, a princípio.
De modo sumário é válido dizer que neste inteirim começou o clichê: Da amizade infantil nasceu algo que extravasou qualquer sentimento que não fosse derivado desejo. Ou algo como aqueles versos que aprendi nestes anos juvenis: "Amor de estudante é uma porcaria, / começa no corredor e termina na secretaria." Mas esta lembrança não tem final feliz nem moral no fim da história. Mas apenas uma lembrança. E o clichê não pára por aí. Mal conseguia dormir pelo desejo de Fabiane. Sua imagem quando me aparecia naquelas noites insones - como a que me encontro agora, cujas causas diferem em gênero, número e grau – eram os motivos de meus ais de amor. Suspirava de desejo como se o ar que me preenchia os pulmões me trouxessem Fabiane para junto de mim. Nas aulas que nunca prestei a menor atenção, agora era gasta fitando-a de maneira tal que ruborizo só de lembrar. Era intransitável aquela situação. Precisava fazer algo. Mas o quê? Como exprimir tudo aquilo que mal compreendia? Como fugir do constrangimento de me confessar assim tão dela? Escrevi poemas imbecis, cartas nunca entregues, ouvia músicas e quem me vinha à lembrança? Respondo: Fabiane. Precisava de um plano. Um modo qualquer de falar tudo isso. Isso o quê? Não o sei. Mas sei que precisava. Até que por fim ele, o plano, me apareceu em sua simplicidade estonteante: a chamaria para conversar e falaria que gostava dela. Simples, prático, nada poético é bem verdade, mas funcionaria.
Era uma quarta-feira na semana anterior à semana de jogos da escola – que me lembra os versinhos: "Escola Estadual Ernani Vidal / Entra burro e sai marginal" hahaha – com o plano infalível em mente na primeira aula a abordei e disse: "Fabiane, depois das aulas preciso falar com você." Ao que respondeu: "Aham". Ótimo meu plano infalível estava funcionando. Mas se o leitor pensa que parei por aí, não foi bem assim: na segunda aula a abordei novamente e disse: "Fabiane, depois das aulas preciso falar com você." Ela responde: "Mas o que é?", "Depois da aula digo". Ponto para mim, além de meu plano infalível estar em perfeito funcionamento, o suspense criava uma expectativa que só poderia ser benéfica. E assim foi, na terceira aula, intervalo, quarta e quinta aulas. Aproximava-me e misteriosamente dizia: "Fabiane, depois da aula preciso falar com você." Enfim chega o final do dia letivo ela me aborda e pergunta: "Ei, me diga o que você queria." Respondo imediatamente: "Vamos lá pra cima que eu digo!" – este lá em cima é uma subida que permite ver toda a escola de um ponto privilegiado. – e seguimos nosso caminho. Eu calmo e confiante mas não tinha coragem de olhá-la. Mas a confiança foi passando e minhas pernas tremiam mais que motor de geladeira velha. Mas caminhava. Chegados lá em cima ela pergunta: "E aí?" Respiro profundamente e calmamente miro aqueles olhinhos tão azuis tão bonitos, que embora a voz não quisesse sair, com o resto da confiança que me havia sobrado digo: "Eu gosto de você!" Dito isto tudo muda, numa questão de pentelhonésimos de segundo me apercebo que era melhor ter ficado quieto; a pernas não tremiam mas vibravam a tal velocidade que a energia gasta naquele gesto poderia alimentar uma pequena cidade por uns dois dias; ela me fita como que esperando alguma reação minha que logo acontece: rapidamente me viro e corro, corro sem olhar para trás. Não paro e corro e corro e corro até chegar em casa. De lá não saí na quinta nem na sexta graças a uma inexplicável gripe que me deixou de cama. Na semana de jogos ela não apareceu. Não lembro o que aconteceu depois, mas nunca a beijei nem nada perto disto. Mas seu nome é Fabiane, isto eu lembro e sei.
"stat rosa pristina nomine,
nomina nuda tenemus"
Seu nome é Fabiane. O sobrenome não me recordo; por onde anda, com quem anda, se casada, solteira, se tem filhos, se viva ou morta, nada disso tenho ciência. Fabiane é seu primeiro nome, isso eu lembro e sei. Olhos verdes, cabelo sempre preso a rabo-de-cavalo, sorriso que caminhava entre o virginal e o malicioso, um delicado narizinho turco, a pele, algo bronzeada, exalava um suave perfume, quase imperceptível, mas que eu sentia. Estávamos na quinta série (era a segunda vez que o fazia, pois houvera reprovado no ano anterior) e tínhamos em torno de doze e treze anos. Ela a primeira da turma, sempre elogiada pelos professores, oito era sua nota mais baixa; de minha parte: repetente, as notas variavam entre o quatro e o seis, zoneiro e preguiçoso. Quando tínhamos trabalho em grupo, corria, fazia mil estripulias, mas sempre dava um jeito para realizá-lo junto a Fabiane. Simples: ela trabalhava, eu coçava, tirávamos dez, e todo mundo ficava feliz. Evidentemente, um ótimo acordo. Não lembro a data ou detalhe algum que possa localizar estes eventos mais precisamente do que o ano: 1994. Quando num desses trabalhinhos em dupla, me apercebi que gostava, no sentido forte do termo, dela. A princípio nem liguei, afinal éramos amigos e por que haveria de gostar dela? Nada de mais. Acreditei nisso, a princípio.De modo sumário é válido dizer que neste inteirim começou o clichê: Da amizade infantil nasceu algo que extravasou qualquer sentimento que não fosse derivado desejo. Ou algo como aqueles versos que aprendi nestes anos juvenis: "Amor de estudante é uma porcaria, / começa no corredor e termina na secretaria." Mas esta lembrança não tem final feliz nem moral no fim da história. Mas apenas uma lembrança. E o clichê não pára por aí. Mal conseguia dormir pelo desejo de Fabiane. Sua imagem quando me aparecia naquelas noites insones - como a que me encontro agora, cujas causas diferem em gênero, número e grau – eram os motivos de meus ais de amor. Suspirava de desejo como se o ar que me preenchia os pulmões me trouxessem Fabiane para junto de mim. Nas aulas que nunca prestei a menor atenção, agora era gasta fitando-a de maneira tal que ruborizo só de lembrar. Era intransitável aquela situação. Precisava fazer algo. Mas o quê? Como exprimir tudo aquilo que mal compreendia? Como fugir do constrangimento de me confessar assim tão dela? Escrevi poemas imbecis, cartas nunca entregues, ouvia músicas e quem me vinha à lembrança? Respondo: Fabiane. Precisava de um plano. Um modo qualquer de falar tudo isso. Isso o quê? Não o sei. Mas sei que precisava. Até que por fim ele, o plano, me apareceu em sua simplicidade estonteante: a chamaria para conversar e falaria que gostava dela. Simples, prático, nada poético é bem verdade, mas funcionaria.
Era uma quarta-feira na semana anterior à semana de jogos da escola – que me lembra os versinhos: "Escola Estadual Ernani Vidal / Entra burro e sai marginal" hahaha – com o plano infalível em mente na primeira aula a abordei e disse: "Fabiane, depois das aulas preciso falar com você." Ao que respondeu: "Aham". Ótimo meu plano infalível estava funcionando. Mas se o leitor pensa que parei por aí, não foi bem assim: na segunda aula a abordei novamente e disse: "Fabiane, depois das aulas preciso falar com você." Ela responde: "Mas o que é?", "Depois da aula digo". Ponto para mim, além de meu plano infalível estar em perfeito funcionamento, o suspense criava uma expectativa que só poderia ser benéfica. E assim foi, na terceira aula, intervalo, quarta e quinta aulas. Aproximava-me e misteriosamente dizia: "Fabiane, depois da aula preciso falar com você." Enfim chega o final do dia letivo ela me aborda e pergunta: "Ei, me diga o que você queria." Respondo imediatamente: "Vamos lá pra cima que eu digo!" – este lá em cima é uma subida que permite ver toda a escola de um ponto privilegiado. – e seguimos nosso caminho. Eu calmo e confiante mas não tinha coragem de olhá-la. Mas a confiança foi passando e minhas pernas tremiam mais que motor de geladeira velha. Mas caminhava. Chegados lá em cima ela pergunta: "E aí?" Respiro profundamente e calmamente miro aqueles olhinhos tão azuis tão bonitos, que embora a voz não quisesse sair, com o resto da confiança que me havia sobrado digo: "Eu gosto de você!" Dito isto tudo muda, numa questão de pentelhonésimos de segundo me apercebo que era melhor ter ficado quieto; a pernas não tremiam mas vibravam a tal velocidade que a energia gasta naquele gesto poderia alimentar uma pequena cidade por uns dois dias; ela me fita como que esperando alguma reação minha que logo acontece: rapidamente me viro e corro, corro sem olhar para trás. Não paro e corro e corro e corro até chegar em casa. De lá não saí na quinta nem na sexta graças a uma inexplicável gripe que me deixou de cama. Na semana de jogos ela não apareceu. Não lembro o que aconteceu depois, mas nunca a beijei nem nada perto disto. Mas seu nome é Fabiane, isto eu lembro e sei.
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